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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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14/12/2007 ..

Vamos negociar!




Senhor Dezembro, espera aí! Além de toda correria que a sua chegada motiva. Toda falta de paciência que - sabe Deus por que! – toma conta das pessoas. Toda a falta de educação, que aparentemente fica guardada o ano inteiro dentro de cada um, e, com a sua chegada é despejada para fora, normalmente em quem nada tem a ver com isso! Toda angústia de ser obrigado a ouvir “jingles” de natal por todos os lados que se ande! Toda parafernália espelhada pela rua, pela casa, pela cidade, que a sua chegada pede e incentiva. E toda a confusão que a saída de todas pessoas juntas, no mesmo dia e normalmente nas mesmas horas, causa!

Além de tudo isso, chuva?

Espera aí, Senhor Dezembro! Vamos negociar! Se tem uma coisa que carioca tem medo, com a devida razão, é chuva! É começar a pingar para ninguém querer sair de casa. Seja por preguiça ou pavor de ficar atolado pela rua. A verdade é que apavora!

Eu adoro chuva. Adoro a melancolia dos dias chuvosos. Adoro almoço com chuva. Adoro estar na minha cozinha com a chuva batendo lá fora. Adoro tomar vinho com chuva, acho que até Baco concordaria comigo, tem tudo a ver! A chuva tem o seu lado cool, até mais do que os dias ensolarados em minha opinião. Mas em Dezembro com todo o estresse que inspirou o primeiro parágrafo, fica impossível captar qualquer uma dessas adoráveis coisas!

Então, Senhor Dezembro, vamos negociar?

Até!







13/12/2007 ..

Feliz, eu?



Confesso que está difícil manter o prazeroso exercício de escrever diariamente. Por mais que a minha meta de desacelerar esteja sendo mantida, dezembro é dezembro! Encontrei o “Grande Ego” outro dia pelas estradas da vida, mais precisamente tomando chopp na pressão no Bar Lagoa, que eu adoro! Além das demandas, “podcasts” que eu não consegui realizar e outros projetinhos mais, que esse ano ficaram para trás, falamos sobre essa dificuldade. Apesar disso “ele” me perguntou: mas você está feliz?

Feliz, eu? Possivelmente sou a pessoa mais feliz desse mundo! Se alguém ousar competir comigo vai ter que provar que é mais feliz do que eu! E olha que vai ser páreo duro, querem ver?

1. Tenho um amor, eterno e único.
2. Tenho a graça de ter sido criada e “construída” pela avó Iracema e pelo avô Fontoura.
3. Tenho a honra de conviver e aprender com a avó Iracema.
4. Tenho o cachorro mais bacana, metido e blasé do planeta.
5. Tenho a profissão mais interessante do mundo.
6. Tenho a Andréa Samico!
7. Tenho saúde para encarar essa profissão, o que é para poucos!
8. Tenho fé, mesmo nas tempestades e incêndios na cozinha!
9. Tenho a inspiração.
10. Tenho o cotidiano.
11. Tenho a casinha laranja à beira do canal, quem pode querer mais?
12. Tenho clientes que compreendem a minha filosofia, outros não, mas e eu com isso!
13. Tenho funcionários que são amigos.
14. Tenho amigos que são amigos!
15. Tenho amigos que nem conheço pessoalmente, mas conheço tanto...
16. Tenho a obstinação na veia, que me move e me comove diariamente.
17. Tenho a reflexão, que me leva longe!
18. Tenho reconhecimento, isso não tem preço.
19. Tenho alegria e melancolia, quem pode viver sem as duas?
20. Tenho fome!
21. Tenho esse cantinho...

Melhor encerrar depois dessa, senão assusto a concorrência!

Até!


12/12/2007 ..

Comer um pêssego...



Apesar da minha rabugice em relação a dezembro, tem coisas que só ele consegue proporcionar. Por exemplo, a satisfação de encontrar certos ingredientes. A alegria de encher a casa de frutas. A ansiedade de voltar a preparar certas receitas que só esta estação permite, como a minha lichia com foie gras em geléia de Tokaji, meu patrimônio cultural! Passamos o ano inteiro à espera desse momento, só esse momento pode ser pleno, verdadeiro e absolto na sua essência mais pura. Porque esse momento, se move conforme as leis e as manias da natureza.

A gente tende, com tanta coisa aparentemente mais importante para pensar, a esquecer como algumas sensações banais, podem ser absolutamente sensacionais. Comer um pêssego por exemplo! Maduro na medida, nem muito mole, nem muito duro, com casca e tudo, pode ser uma das melhores coisas da vida. Para isso basta, acima de tudo, estar na estação do pêssego e de bem com a vida. Contemplar, tocar, acariciar e naturalmente morder! Sentir o frescor, a maturação, o corpo e porque não, como no vinho, o retrogosto!

Prestar a devida atenção aos detalhes que envolvem esse ritual e às sensações que esse gosto causa em todas as partes do seu corpo, vai lhe roubar alguns minutos, mas o que isso pode significar, só você pode saber. Fora isso, é torcer para que a safra tenha sido boa – a nacional esse ano está fantástica! – e agradecer à natureza por sua sabedoria em estabelecer estações, e com isso, dividir os prazeres!

Até!
11/12/2007 ..

Piscina e queijo quente...



Estou tentando esquecer que estamos em dezembro, assim me protejo um pouco de toda essa loucura que anda solta pelas ruas e resguardo a minha sanidade mental. Ando tentando manter o ritmo um pouco mais desacelerado, fingindo que é abril, digamos assim. Hoje mantive a minha rotina acreditando piamente nisso. E ainda tenho a cara de pau de dizer que estou resguardando a minha sanidade mental!

Enfim, como de médico, cozinheiro e louco todo mundo tem – e se não tem, quer ter - um pouco, vamos em frente! Hoje saindo da academia depois de uma sessão de tortura em aparelhos, senti o cheiro da piscina que fica na saída. Passo pelo menos duas vezes por semana por ali, mas sempre correndo, afobada, atrasada! Hoje com o estado de espírito em desaceleração, senti o aroma da piscina entrar pelo meu corpo, bater na porta da alma e perguntar: “Hei! Tem alguém em casa?”.

Impressionante como os aromas da vida podem ter significados tão distintos para cada um de nós. Cheiro de piscina me lembra queijo quente! Isso mesmo, queijo quente! Mas tem uma explicação. Como toda criança que se preze, eu sempre achei que seria campeã de alguma coisa na vida. Não imaginava naquela época, que seria das panelas, mas está valendo assim mesmo. Por conta disso tentei vários esportes, sempre incentivada pelo meu avô, que nas conversas em família no final de ano, sempre me colocava campeã em todos eles! Na verdade na natação – e em alguns outros! – não foi bem assim. Confesso que nunca gostei muito de natação, sempre tive medo da hora do salto! Hoje em dia nem me atrevo mais, mas naquela época encarava todas por um bom queijo quente! È que na saída da aula, meu avô sempre deixava pago na cantina da academia um queijo quente para mim e para os meus primos, como incentivo aos campeões da família! Era a melhor parte do treinamento. Disso eu não tenho a menor dúvida.

Sentindo o cheiro da piscina hoje fui transportada para um tempo no qual as minhas preocupações não eram muito maiores do que ter coragem de saltar na piscina para ganhar o meu queijo quente. Ainda assim, apesar de infantil, era uma preocupação. Digamos assim, uma preocupação do bem, porque incentivava a superação de um limite. E limites, apesar de não serem bem vindos, podem ser saudáveis, porque incentivam a superação. Nem que seja por um queijo quente!

Até!
10/12/2007 ..

Dezembro, o mês dos porquês...



Dezembro é um mês estranho, pelo menos me parece estranho. Tudo é para ontem! Tudo é maior do que parece ser o ano inteiro. Ter é a palavra de ordem, assim como correr! Correr para comprar, comprar primeiro, sempre! Correr para chegar.

Chegar? Mas aonde? Porque tudo em dezembro é tão imediato? Porque a angústia do ano inteiro acaba tomando conta de cada pedacinho do ser humano em dezembro? Porque em dezembro se pode comer mais? Exceder, exagerar, extrapolar mais? Tanto porque até me lembra aquela música “Oito anos” da Paula Toller, que a Calcanhotto imortalizou:

“Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo
O que significa
"Impávido Colosso"
Por que os ossos doem
Enquanto a gente dorme
Por que os dentes caem
Por onde os filhos saem
Por que os dedos murcham
Quando estou no banho
Por que as ruas enchem
Quando está chovendo
Quanto é mil trilhões
Vezes infinito
Quem é Jesus Cristo
Onde estão meus primos
Well, well, well
Gabriel...
Well, well, well
Well
Por que o fogo queima
Por que a lua é branca
Por que a Terra roda
Por que deitar agora
Por que as cobras matam
Por que o vidro embaça
Por que você se pinta
Por que o tempo passa
Por que que a gente espirra
Por que as unhas crescem
Por que o sangue corre
Por que que a gente morre
Do qué é feita a nuvem
Do qué é feita a neve
Como é que se escreve
Reveillon?”

No quesito comida a coisa fica mais estranha ainda. Tudo é pouco e nada é o bastante. Excesso é a palavra de ordem e por mais estranho que pareça, em dezembro ela tem outra conotação. Talvez a tradução mais usual seja: compensação?

Aí eu me pergunto, mas porque compensar tudo de uma só vez e acabar estragando a receita com tantos elementos? Em minha humilde opinião de cozinheira, um bom prato não tem mais do que três elementos. É preciso sentir o sabor, a intensidade, a poesia de cada um. É preciso abrir espaço para a beleza única de cada um. É preciso respeitar o DNA de cada um acima de tudo. Em dezembro parece que tudo isso perde o sentido. Dezembro poderia ser conhecido, na linguagem gastronômica, como o mês da cozinha fusion! Onde o mais é mais mesmo, e a mistura, a extravagância e o excesso não são, digamos assim, tão excessivos!

Eu, minimalista que sou por natureza e vocação, gostaria de me recolher em dezembro. Meu tempo, minha reflexão e minha filosofia de trabalho, parecem não se encaixar na noção de tempo e espaço que dezembro impõe. Se durante o ano inteiro já é difícil convencer as pessoas de que artesanato e produção industrial são coisas absolutamente diferentes, imagine em dezembro? Mas até que a gente descubra como é que se escreve Reveillon, muito porquê ainda vai rolar!

Até!
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